Moema

Moema
Moema - Rodolfo Bernardelli

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

SAUDADE

Hoje que a mágoa me apunhala o seio,

E o coração me rasga atroz, imensa,

Eu a bendigo da descrença em meio,

Porque eu hoje só vivo da descrença.



À noite quando em funda soledade

Minh'alma se recolhe tristemente,

Pra iluminar-me a alma descontente,

Se acende o círio triste da Saudade.



E assim afeito às mágoas e ao tormento,

E à dor e ao sofrimento eterno afeito,

Para dar vida à dor e ao sofrimento,



Da saudade na campa enegrecida

Guardo a lembrança que me sangra o peito,

Mas que no entanto me alimenta a vida.


Augusto dos Anjos

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O Objectivo da Arte não é Ser Compreensível

Toda a arte é expressão de qualquer fenómeno psíquico. A arte, portanto, consiste na adequação, tão exacta quanto caiba na competência artística do autor, da expressão à cousa que quer exprimir. De onde se deduz que todos os estilos são admissíveis, e que não há estilo simples nem complexo, nem estilo estranho nem vulgar.
Há ideias vulgares e ideias elevadas, há sensações simples e sensações complexas; e há criaturas que só têm ideias vulgares, e criaturas que muitas vezes têm ideias elevadas. Conforme a ideia, o estilo, a expressão. Não há para a arte critério exterior. O fim da arte não é ser compreensível, porque a arte não é a propaganda política ou imoral.



Fernando Pessoa, in 'Sobre «Orpheu», Sensacionismo e Paùlismo'

sábado, 17 de julho de 2010

Arte pela arte

Arte in-útil, arte livre?


Paulo Leminski

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A curiosa idéia de que a arte não está a serviço de nada a não ser de si mesma é relativamente recente. Data do romantismo europeu do século XIX, apogeu da 1ª Revolução Industrial e da hegemonia burguesa, momento em que o artista se toma um desempregado crônico.

Arte e artesanato. A indústria veio para substituí-lo.

Sem função social mas ainda cheia de sua própria importância, a arte entre horrorizada e fascinada, volta?se contra o mundo utilitário que a cerca, negando-o, criticando-o, como um não-objeto feito de antimatéria.

O mundo burguês é anti-artístico. A arte não precisa mais dele. Já pode nascer a "arte pela arte".



Delícia e lição

Uma arte, uma literatura in-útil: nenhuma idéia poderia ser mais estranha à Idade Média católica, herdeira das concepções greco-latinas sobre o duplo papel da arte: "delectare", "agradar", e "docere", "instruir".

Para um europeu, letrado da Idade Média (quase sempre um clérigo), parecia a coisa mais lógica do mundo que a atividade artística e literária estivesse, como as demais atividades, subordinada a um fim educativo, edificante, a serviço da salvação da alma dos fiéis.

A obra literária tem deveres morais. Não há lugar para uma obra blasfema, sacrílega, iconoclasta, dissolvente, corruptora.

A obra de arte é a expressão de uma norma. Não um gesto criminoso.

Como os homens que a fazem, deve lutar contra o pecado.

A desmesurada liberdade da literatura ocidental moderna pareceria aos medievais o triunfo de Satanás na terra. O pecado da literatura moderna, aliás, é o mesmo de Lúcifer, a soberba, o orgulho de se declarar autônoma, além do bem e do mal.

O Renascimento italiano, cético, crítico, mundano, faz nascer uma nova concepção de arte e literatura, não mais subordinada a deveres morais ou pedagógicos. Uma arte voltada apenas para o "delectare": nasce o conceito de "Beleza", o específico artístico, independente de metas didáticas ou balizas éticas.

A reação católica da Contra-Reforma, em luta contra o protestantismo, restaurou a antiga doutrina da arte a serviço de objetivos ideológicos ou doutrinários. A "beleza" só tem razão de existir porque deve fazer a Verdade se gravar mais fundo no coração dos homens. E essa Verdade vem de fora: préexiste à obra de arte. A literatura volta a ser apenas o veículo de uma visão dada da vida e do mundo.

Não que o protestantismo fosse mais liberal em matéria de arte e literatura. Ao contrário. Lutero e Calvino eram duas mentes medievais típicas. Certas correntes protestantes chegaram mesmo a desvalorizar por completo qualquer atividade artística como sendo coisa de Satanás.

A visão utilitária da arte e da literatura prevalecerá até o século XVIII, incluindo os Enciclopedistas. A vasta obra literária de Voltaire está a serviço das "Luzes", do trabalho de esclarecer as mentes, ridicularizar o preconceito, desmistificar a superstição. Voltaire não é um poeta, tal como entendemos a palavra hoje, uma consciência problemática expressando em palavras seus conflitos. É um educador, um pedagogo, que usa os recursos da literatura para ilustrar certos princípios "morais".

Com a Revolução Francesa e o fim do Antigo Regime, dissolve-se o difícil equilíbrio entre o autor e seu público, entre o autor e seus mecenas ou protetores.

De agora em diante, entregue aos acasos do mercado, o escritor está no mato sem cachorro.



A via francesa

A doutrina da "arte pela arte" foi formulada, pela primeira vez, com todas as letras, na França do século XIX, pelos poetas parnasianos e simbolistas (Gautier, Leconte de Lisle, Baudelaire, Mallarmé). Era também o credo que inspirava o desesperado artesanato estilístico de Flaubert.

Sua formulação foi sentida pelos artistas como uma verdadeira inovação, a libertação da arte de quaisquer compromissos com o não-artístico, a moral, a política, a exaltação patriótica, a tradição nacional, o Bem, a Verdade.

Na literatura romântica, ainda havia uma tensão moral interna que, na França, teve sua grande expressão na caudalosa produção poética de Victor Hugo, hoje pouco prezada (mal conseguimos compreender o verdadeiro endeusamento de que Victor Hugo foi objeto em vida).

Significativamente, a evolução da poesia moderna, em fins do século XIX e inícios do XX, deriva diretamente desses cultores da "arte pela arte": a poesia moderna não existiria sem Baudelaire ou Mallarmé.

Isso se deve principalmente ao fato de que esses poetas, libertados dos lastros morais ou patrióticos, puderam fazer a poesia avançar tecnicamente, em termos de linguagem, até os extremos limites, de que o "Lance de Dados" de Mallarmé é o paradigma último.

Descendendo deles, a poesia mais significativa do século XX nasce da "arte pela arte". Da arte como inutensílio. Não como veículo de princípios "superiores" ou "maiores".

Por essa razão, boa parte da melhor poesia deste século é poesia sobre poesia, poesia crítica, poesia tendo o próprio poetar como objeto de inspiração. Metalinguagem, como se diz no jargão técnico. Mesmo quando tem uma "motivação moral" por trás (o que é inevitável, já que o homem é um ser político, logo moral).

A doutrina da arte pela arte é uma decorrência natural da sobrevivência da arte numa sociedade regida pelo mercado.

No mundo burguês, a obra de arte só pode ser duas coisas: ornamento e mercadoria. Um afresco renascentista na parede de uma Igreja é um complexo composto ideológico, pulsando de tensões morais e intenções de envolvimento coletivo. Um quadro de Manabu Mabe na sala de um banqueiro é apenas um complemento do tapete e do padrão dos sofás. A burguesia saudou a liberdade formal da arte moderna, comprando-a. Transformando-a em mero artesanato: Qualquer artista bem informado de hoje sabe que a arte já acabou. O que continua existindo é artesanato (ou industrianato).

Certas artes, pintura, escultura, se prestaram melhor a essa transformação em mercadoria eticamente neutra, buscadora apenas de qualidades plásticas e cromáticas, técnicas e sintáticas.

Ornamento e mercadoria, a linguagem da pintura moderna perdeu todo o impacto subversor das vanguardas do início do século (expressionismo, fauvismo, futurismo, cubismo, surrealismo, abstracionismo geométrico, tachismo). Ao ouvir falarem arte moderna, o burguês puxa o talão de cheques.

Mas uma arte resistiu com particular vigor a essa comercialização.

E essa foi a literatura, a arte que tem a palavra como matéria-prima. Em especial, a poesia, lugar onde a palavra atinge vigência plena, máxima, substantiva.

Nem era de admirar. Signicamente, as artes são feitas com ícones (cores, sons, melodias, ritmos, movimentos corporais). A literatura, a poesia, é a única arte feita com símbolos (palavras que o poeta, alquimista, tenta transformar em ícones).

Ora, um ícone, uma cor pode ser a-moral e "a-política".

Uma palavra não pode.

Pra começo de conversa, uma cor é um valor universal, independente de raça, época ou lugar. Uma palavra, toda palavra pertence a um idioma particular, historicamente determinado no espaço e no tempo, o mais pesado lastro coletivo que o homem pode carregar. Falar basco na Espanha ou gaélico na Irlanda é um gesto, em si, político (as nações deveriam coincidir com o espaço de uma língua ou dialeto).

Cada palavra tem sua história, sua biografia, sua etimologia.

Seu uso deflagra uma constelação de sub-significados e sentidos que, em cada idioma particular, tem certo desenho próprio e intransferível.

A palavra é, essencialmente, política. Portanto, ética.

Daí, talvez, a dificuldade de transformar a literatura, a poesia, em mercadoria.

Na ficção, o ramo comercialmente mais próspero da literatura, não é a palavra a verdadeira mercadoria. E o enredo, a trama, o entrecho, vale dizer, desenhos, isto é, ícones. Aquelas coisas que Brecht queria, em vão, vender, entrando na fila dos roteiristas de Hollywood...

O puro valor da palavra está na poesia. Por isso, é sempre considerada mercadoria difícil. "Poesia não vende" é um dos mandamentos do Decálogo mínimo de qualquer editor sensato. Pois não vende mesmo. O destino da poesia é ser outra coisa, além ou aquém da mercadoria e do mercado.

Mal obram e mal pensam aqueles que reclamam da renitência das casas editoras em publicar poesia. Deveriam mais é ficar alegres. A poesia, afinal, é a última trincheira onde a arte se defende das tentações de virar ornamento e mercadoria, tentações a que tantas artes sucumbiram prazeirosamente.

E não deixa de intrigar o fato de a doutrina da "arte pela arte" ter sido formulada, exatamente, por poetas. Não por pintores, nem por romancistas.

Transformada em mercadoria, a obra de arte é transformada em nada.

Os teóricos da "arte pela arte" apenas recolheram essa maldição. E lhe deram sinal positivo.

Desde então, a arte está em conflito direto com o mundo. A melhor arte do século XX é um gesto contra o mundo que a rodeia. Uma negatividade.



A via russa

"Acontece comumente que os autores de romances, mesmo tratando, aparentemente, de combater os vícios, apresentam-nos com tais cores que por esse mesmo fato fazem com que os jovens se sintam atraídos por vícios dos quais conviria não falar. Qualquer que seja o mérito literário dessas obras, elas só podem ser publicadas se tiverem em vista um fim verdadeiramente moral".

"Mutatis mutandis", a frase poderia ser assinada por qualquer autoridade cultural soviética (ou socialista) de hoje. Basta substituir "moral" por "coletivo", "socialista" ou "revolucionário".

Mas a frase é do conde Razumovski, ministro da Instrução Pública da Rússia, em 1814, justificando a proibição de um romance que satirizava a sociedade aristocrática da época.

Tanto da parte do governo quanto da parte dos escritores, a extraordinária literatura russa do século XIX (Gogol, Tolstói, Dostoiévsky, Turguiênev, Tchékov) é uma literatura, sobretudo, moral. E a consciência social do povo russo, uma literatura de acusação e denúncia, de resistência e responsabilidade coletiva.

Caráter moral: nisso, os poderes e a oposição estavam de acordo. Só os sinais estavam trocados. Ao forçoso e forçado moralismo da censura czarista, os escritores russos reagiram com um moralismo oposto.

O grande momento reflexivo dessa afirmação russa do caráter moral da literatura é "O que é Arte", de Tolstói (de 1898).

Nesse ensaio implacável, o autor de "Guerra e Paz" denuncia a "degenerescência" da arte moderna, em particular, a doutrina da "arte pela arte", à luz de critérios éticos e "humanos". Para Tolstói, toda a arte e a literatura de sua época lhe parecem manifestações patológicas de sensibilidades decadentes e "desumanas". Repugna-lhe seu "ocultismo", sua tendência à criança de seitas e "panelinhas" fechadas. No rigor das suas exigências, expressa cabal repúdio a Balzac, Flaubert, Zola e os Goncourt, enquanto exalta a ficção de Dickens, Victor Hugo e Dumas pai... Sobre os poetas, Baudelaire, Mallarmé, seus juízos são mais severos ainda.

Esse caráter ético da literatura russa vem do século XIX e continua, quase intacto, na literatura soviética: a Revolução apenas herda do czarismo o utilitarismo artístico e literário. Nesse aspecto, a literatura do povo russo apresenta uma rara unidade de sentido.

De Razumovski a Tolstói, chegamos a Plekhânov, o introdutor do marxismo na Rússia: a mesma postura "utilitarista", moral, anti-arte pela arte. Seu "A Arte e a Vida Social", conferências de 1912, repete, em nota marxista e proletarizante, a argumentação de Tolstói.

Nessas conferências, cujo brilho não pode ser negado, Plekhânov conduz o julgamento da "arte pela arte", à luz dos seus condicionantes de classe. O que em Tolstói era moral, em Plekhânov é político.

Descontados os detalhes, essa visão da arte e da literatura prosseguiria por toda a era soviética, stalinismo adentro.

Importa muito observar ainda como essa visão russa da arte impregnou a estética e a poética do socialismo em geral. Uma postura ideológica marxista do mundo parece ser indissociável de uma visão utilitária e utilitarista da arte, nas antípodas da "arte pela arte".



Adorno: "Arte pela arte" de esquerda

Felizmente, a visão marxista da arte não parou nos maniqueísmos moralistas de Plekhânov, produzindo com Adorno (Theodor W. Adorno) uma espécie de síntese dialética entre o inutensílio da "arte pela arte" e o compromisso ético e político de viver revolucionariamente uma dada circunstância histórica.

Expoente da chamada Escola de Frankfurt, Adorno já é um contemporâneo de Walter Benjamin e Brecht. Sua reflexão teórica se volta para um capitalismo numa fase muito mais adiantada que a de Plekhânov. Comparado com Plekhânov, Adorno reflete a) num meio intelectualmente muito mais sofisticado e b) numa circunstância não-revolucionária.

Para Adorno, a grandeza da arte está em sua capacidade de resistir ao estatuto de mercadoria, em situar-se no mundo como um "objeto não identificado". Em sua recusa de assumir a forma universal da mercadoria, a arte, a obra de arte é a manifestação, em seus momentos mais puros e radicais, de uma "negatividade". Ela é "a antítese da sociedade". A antítese social da sociedade.

Para Adorno, crítico eleitor agudíssimo das contradições do capitalismo, a arte só tem uma razão de ser enquanto negação do mundo reificado da mercadoria. Vale dizer, enquanto inutensílio.

A tensão ética da obra está nesta recusa em virar mercadoria.

Misteriosamente, os defensores da "arte pela arte" tinham razão.



In ANSEIOS CRIPTICOS, Ed. Criar, Curitiba, PR, 1986, p. 29-34.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Raízes Satânicas do Rock ‘n roll

O Artista possui um papel essencial na sociedade. Muitas vezes, mesmo involuntariamente, poetas, pintores, atores e trovadores revelam, sem saber, profundas verdades tanto da psicologia humana quanto do momento histórico em que está inserido. Isto ocorre pois os verdadeiros artistas agem em completa harmonia consigo mesmo e no momento em que criam e realizam a arte são verdadeiras manifestações do Logos na terra. O Cosmos e os arquétipos revelam-se sempre nas obras de arte na medida em que o artista se desprende das limitações de sua realidade.
Além disso, a arte está sempre ligada ao cenário político social em que foi gerada. Por este motivo, dependendo do nível de emancipação do indivíduo e do controle imposto pela sociedade em que vive, a arte atingirá diferentes níveis de expressão. A música, que é a mais universal artes e um dos prazeres mais comuns dos dias de hoje, demorou centenas de anos para se livrar de seus grilhões religiosos. A polifonia e a dissonância levaram anos para serem finalmente permitidas pela Igreja Católica. A Santa Inquisição proibiu, por exemplo, a progressão do intervalo entre Fá e Si, batizando-a de Diabolus in Musica sob o argumento de que ela causaria a evocação do Capeta. O tabu só foi quebrado com o fim do santo ofício, quando então passou a ser usada por artistas como Beethoven e Paganini
A dança, com raras exceções, foi por séculos sempre considerada uma blasfêmia sob o olhar da Igreja e por isso tinha que ser negada e controlada pelos padres, assim como tudo aquilo que produzisse prazer. Não é segredo para ninguém que o “caminho da luz” nunca gostou que nos divertíssemos. A arte só encontra sua mais alta expressão com a liberdade e é por isso que sempre estará associada ao arquétipo da rebeldia e da blasfêmia. Não é surpresa portanto que McLuhan tenha escrito com toda a propriedade: “O rock é o maior renascimento poético desde Homero.”
O rock é de fato um dos mais típicos frutos de nossa Era Satânica. Não é a toa que ele surgiu justamente na mesma década em que LaVey lançava as bases do Satanismo moderno. Tanto os livros de LaVey e Crowley quanto as músicas de Little Richard e Rolling Stones são conseqüências de um mesmo momento histórico que exigia a morte de antigos valores e a manifestação de uma nova forma de se ver o mundo.
O Rock, portanto, já nasceu como um grito de liberdade contra um ideal preconceituoso instituído. O estilo musical mostrava desde seu primeiro momento que veio para se rebelar contra as regras impostas por uma sociedade controladora e estagnadas em valores de uma era que já não deveria mais existir. E não é exatamente esta a proposta do Satanismo? Não é Satã o contestador original dos homens e das leis de deus?
É claro que a sociedade reagiu a tal rebeldia e, como no mito, tentou banir Lúcifer para o inferno. O problema era que Lúcifer era então os seus próprios filhos e filhas que escutavam a musica rebelde em seus encontros ou trancados em seus próprios quartos. Diversos mecanismos foram acionados para destruir a representação musical da rebeldia. Além da censura e dos esforços das comunidades conservadoras nos países ocidentais, o estilo musical só entrava nos países da União Soviética por meios clandestinos como ainda hoje a música é banida de algumas nações islâmicas.
Toda a repressão de nada adiantou, a lei do proibido nos explica que aquilo que é banido torna-se mais atraente, e a juventude deixava de usar o dinheiro do almoço no colégio para comprar os seus frutos proibidos nas lojas de disco. A saída encontrada foi o lançamento de alguém que estivesse mais aquém dos padrões da classe média branca e protestante.
Elvis Presley chegou como uma promessa em aproximar pais e filhos novamente, mas revelou-se uma das figuras mais rebeldes e populares do rock ‘n roll. Se por um lado ele tinha toda a aparência de um bom rapaz no palco rebolava obscenamente, e a resistência acabou aceitando o rock como os gregos aceitaram o cavalo de tróia. Talvez a música Devil in Disguise, retrate bem o que foi Elvis para a sociedade americana:

You look like an angel,
Walk like an angel,
Talk like an angel.
But I got wise you're the devil in disguise.
Oh yes you are the devil in disguise.
Ou:
Você se aparece com um anjo,
Anda como um anjo,
Fala como um anjo.
Mas eu descobri que você é o diabo disfarçado.
Ah sim, você é o diabo disfarçado.

Elvis conquistou o planeta e abriu as portas para hordas inteiras de artistas finalmente livres para fazerem o que quisessem em cima do palco. Com o caminho aberto e alargado vieram ao estrelado Little Richard, Buddy Holly, Chuck Berry entre tantos outros.
Os fãs de Little Richard aprenderam com seus gritos e delírios que a arte não deveria ser usada para reprimir e acalmar a besta interior dentro de nós, mas sim para colocá-la para fora em uma catarse praticamente pagã. Depois dele veio ainda Chuck Berry que mesmo sendo negro e afeminado foi um sucesso numa terra onde seria facilmente marginalizado. A musica simplesmente não podia mais ser contida. Com a ida de Elvis para o exército Jerry Lee Lewis entra em cena tocando piano, até então um símbolo único da musica erudita e sacra sempre presente nas igrejas protestantes.
Da Inglaterra viriam os quatro rapazes que, segundo eles mesmos, se tornariam mais famosos que Jesus Cristo e por isso mesmo ganhariam a antipatia de Igrejas cristãs em todo o planeta. A grande besta em pessoa, Aleister Crowley aparece entre os muitos personagens da capa do disco Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band. Os beatles foram verdadeiros estandartes no rompimento de todos os valores tradicionais e ajudaram a universalizar ideais libertários bitnicks em relação às drogas e ao sexo.
O arquétipo do Diabo se tornaria ainda mais claro com “suas majestades satânicas”, os Rolling Stones. O grupo musical tinha um talento ainda maior que os dos Beatles em chocar a sociedade. Mick Jagger era um ser andrógino e bissexual enquando que Keith Richard mantinha sua atitude marginal agressiva. A música “Symphathy for de Devil” do grupo foi a primeira música verdadeiramente popular a falar da figura do Diabo e Mick Jagger inclusive confirmou que Anton LaVey foi o inspirador da canção.
Diversos artistas nunca viram problemas e se declarar publicamente partidários dos ideais de Horus. Jimmy Page, Guitarrista do Led Zeppelin nunca escondeu de ninguém o fato de ser um verdadeiro estudioso da obra de Crowley, que também aparece em várias citações nas músicas da banda inglesa Iron Maiden, umas das principais bandas de Heavy Metal dos anos 80. Aqui no Brasil graças à parceria entre Raul Seixas e Paulo Coelho, os escritos do mago inglês chegaram até nós em músicas como Sociedade Alternativa, do disco Gita de 1974 e outras em parceria com Marcelo Nova como Nuit, no disco A Panela do Diabo de 1989.
Voltando aos anos 70 a banda The Eagles compunha sua música em homenagem à Church of Satan e “Hotel California” permaneceu nas parada de sucesso inglesas durante semanas consecutivas. Poucos anos depois o cantor Ronnie James Dio popularizaria em suas apresentações o sinal do caminho da mão esquerda (o sinal dos chifres) como um dos gestos imortalizados para sempre na cultura do rock ‘n roll.
A popularidade do rock cresceu tanto que hoje em dia ela é até mesma tocada pelas igrejas e congregações cristãs que antes a combatiam, batizado agora de Rock Cristão e White Metal. Mas mesmo sob o teto da decadência o rock de certa forma ainda é um legitimo fruto da nova mentalidade satânica que surgiu com ele. Citando o próprio Papa Negro, Anton LaVey em sua obra máxima, a Bíblia Satânica:
“E possível que logo vejamos as religiosas de "topless" rebolando seus corpos sensualmente na "Missa Solemnis Rock"? Satã sorri e diz que adoraria essa delicadeza - muitas religiosas são moças lindas com pernas muito bonitas. Muitas das igrejas com maiores congregações recebem seus maiores aplausos durante a musica sensual - também satiricamente inspirada. Afinal de contas, o demônio sempre teve as melhores músicas.”
A música satânica já estava consagrada e finalmente revelava sua verdadeira forma, em poucos anos os filhos não chamariam mais seus pais de “senhor” e o sexo antes do casamento seria algo rotineiro. O Satanismo e o rock ’n roll estão intimamente ligados, pois são filhos de uma mesma mentalidade individualista, materialista, hedonista e contestadora. É claro que com o tempo surgiram bandas que só tinham uma roupagem satânica, mas que no fundo eram manipulados por outros interesses. Mas de qualquer forma, como já me sussurrou um velho demônio: Há muito mais no rock ‘n roll do que aquilo que você pode ouvir, meu rapaz.

Texto disponível na MORTE SÚBITA INC

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Embora o cartão postal de Campos seja a catedral, esta que aparece ao fundo, uma obra de arte muito mais significativa fica em segundo plano. Trata-se do soldado, obra do grande escultor campista Modestino Kanto pouco conhecido pela sua própria gente mas que tem o reconhecimento de quem gosta de arte.
Além do soldado existe a escultura de Nilo Peçanha que fica no inicio da Av. Nilo Peçanha e muitas outras no Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro.

Justificativa

Não tenho muito culhão para ficar na frente do computador postando mensagens, quaisquer que sejam, mas duas coisas me induzem a essa máquina: O gosto pela arte e a paixão pelo Botafogo. Na verdade prá ser botafoguense tem que ser artista ou pelo menos ter alma de artista.